São horas agitadas.
Na sucessão de comunicados de imprensa, imagens e declarações belicosas, o único elemento que parece emergir na história do ataque americano à Venezuela é a completa passividade e aquiescência da imprensa infiltrada e das autoridades políticas, tanto nacionais quanto internacionais, em relação a toda a questão.
Apenas para manter as aparências, alguns líderes europeus "dispostos" (Macron e Sturmer...) balbuciaram algo, bem cientes de que não podiam ir longe demais, dada a sua participação em operações igualmente sujas sob a égide dos globalistas (vide Ucrânia, sic!).
Segundo Suas Excelências, tudo não passou da reação correta da maior democracia do mundo contra o autocrata de sempre, feio e maligno, e agora também um narcotraficante, desta vez personificado pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro.
A primeira razão séria que me vem à mente, além da fanfarronice da propaganda oficial, é a estrutura singular da Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo, seguida de longe pela Arábia Saudita.
O "vulno" que desencadeou a reação americana é a questão de longa data da nacionalização dos recursos petrolíferos, defendida pelo governo bolivariano de Hugo Chávez e continuada pelo de Nicolás Maduro.
Esse fator certamente gerou considerável irritação e descontentamento entre as diversas multinacionais petrolíferas, que alternadamente apoiaram e financiaram as campanhas eleitorais de sucessivos presidentes americanos desde que Chávez assumiu o poder. Mas, além dessa primeira e certamente significativa razão geoeconômica, há outra, mais profunda, que influenciou e inspirou as ações de Trump na Venezuela.
A prioridade geoestratégica do governo Trump é desestabilizar a chamada frente BRICS, que busca estabelecer uma ordem global multipolar, não mais liderada exclusivamente pelos EUA.
Ao fazer isso, Donald Trump busca estabilizar a situação na Ucrânia com uma paz que favoreça a Rússia de Putin, tentando distanciá-la da China, com quem tem uma disputa acirrada em relação à hegemonia na vital região do Indo-Pacífico.
Para alcançar esse objetivo, Trump agora busca "garantir" todo o continente latino-americano, por meio de pesadas tarifas (como no caso do Brasil) e ameaças pouco veladas de novas intervenções diretas na Colômbia e em Cuba.
O obstáculo político mais premente era a Venezuela chavista, defensora de uma rebelião socialista e bolivariana, baseada na ideia de uma fórmula para a soberania real sobre a economia nacional, de tal natureza que chega a ser "herética" aos olhos até mesmo do antiquado socialismo real; tudo isso certamente não foi bem recebido pelas diversas administrações estadunidenses.
Desde a queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos praticamente cessaram as intervenções militares na América Latina, adotando uma abordagem mais branda, visando moldar as políticas do hemisfério por meio de pressão econômica e financeira.
A chegada do governo Trump, contudo, marcou o fim da fase de globalização descontrolada na política e na economia. A globalização era considerada instável por apresentar incertezas. Estas deviam-se principalmente à dificuldade de controlar um fenómeno que poderia gerar novos e inesperados concorrentes económicos e políticos.
Em segundo lugar, fenómenos como a excessiva financeirização de diversas economias, acompanhada pela deslocalização das atividades produtivas, representavam o risco, a médio prazo, de gerar fenómenos de instabilidade política e social incontrolável.
Por essa razão, a decisão de Trump de retornar a uma política de proteção da sua própria economia nacional e, no caso específico da América Latina, a uma política de intervenção direta, com o objetivo de estabelecer "pontos de interesse" geoestratégicos capazes de iniciar a desintegração da frente dos BRICS, que mencionamos anteriormente, torna-se ainda mais relevante.
Essa política, que envolve o uso de incentivos e punições, incluindo intervenções militares e negociações, como no caso da questão de Gaza e do bombardeamento do Irão, assume, agora mais do que nunca, uma perigosa conotação de chantagem e influência.
A ação de Trump na Venezuela não foi meramente uma ação militar episódica destinada a resolver um problema dos EUA no seu próprio quintal, mas constitui, antes, um verdadeiro aviso a todos aqueles que se recusam a acatar imposições estrangeiras.
E essa lógica agressiva inclui os vários "avisos" à Colômbia e a Cuba e as reivindicações de anexação da Groenlândia (e aquelas, por ora, deixadas de lado, sobre o Canadá... e os Açores).
Agora, pensar que a Rússia, a China, a Índia e outras entidades geopolíticas podem forçar a situação, é uma possibilidade mais longínqua.
Agora, pensar que a Rússia, a China, a Índia e outros atores geopolíticos podem forçar diretamente os EUA a agir é extremamente arriscado e, acreditamos, ilusório.
Os EUA possuem mais de duzentas bases militares ao redor do mundo, além de uma liderança tecnológica e econômica que permanece sólida apesar da dívida externa, dos desequilíbrios comerciais e assim por diante.
Continuam sendo o país que emite e detém a maior quantidade de ativos líquidos do mundo. Sem mencionar o fato de que atualmente constituem o principal ponto de referência para os fluxos financeiros globais.
O exposto acima não pode e não deve ser motivo para pessimismo quanto ao que fazer diante de tal cenário. Trata-se simplesmente de compreender que tentar confrontar o monstro globalista contando com a presença de novos atores políticos e econômicos no cenário internacional e seu potencial real de ação é inútil.
Do ponto de vista político oficial, a Rússia e a China não podem e não poderão fazer muito mais do que isso. A menos que uma abordagem fundamental seja alterada. Todos os países do chamado BRICS deveriam retomar o papel que eles e a União Soviética assumiram durante os anos do bipolarismo EUA-URSS, almejando se tornar líderes e inspiradores de todas as convulsões que caracterizaram o cenário político daqueles anos, desde as lutas contra o colonialismo nos países do Terceiro Mundo até as diversas expressões de antagonismo juvenil e formas de autonomismo armado, como as do IRA ou do ETA.
Contudo, encarar o retorno a certas abordagens como um fenômeno controlado por outros, dependente unicamente de certos países ou realidades geopolíticas, é igualmente ilusório, pois subjacente a tudo isso deve haver um desejo genuíno de revolta, alimentado por uma consciência igualmente profunda.
Nesse contexto, deparamos-nos com a própria natureza do Ocidente, caracterizada por uma "bipolaridade" constitutiva e ontológica. Isso significa que, ao lado dos parâmetros e codificações de um pensamento linear e racional, centrado na primazia da economia e da tecnologia sobre o homem, entendido unicamente como um sujeito que percebe necessidades materiais, existe outro pensamento, espelhado e oposto, impulsionado por uma irracionalidade constitutiva e cujo princípio fundamental é o impulso para a vida e a expansão da consciência individual.
E assim, todas as certezas do Ocidente acabam por se dissipar, dando lugar àquele sentimento irracional que, mais cedo ou mais tarde, lança tudo no caos...




