Diante do novo leviatã que se avizinha, o domínio planetária do algoritmo faustiano ganha forma.
Pouco — ou talvez nada — permanecerá como era.
No mínimo, precisamo-nos preparar, começando pela forma como avaliamos a primazia da tecnologia sobre todas as outras formas de conhecimento humano.
Para Heidegger, a essência da tecnologia moderna não é algo puramente técnico, mas o modo fundamental de desvelamento do Ser — a forma visível pela qual as coisas se manifestam à humanidade.
A visão instrumental — que se torna erro fatal — encara a tecnologia meramente como um meio para um fim, apenas mais uma atividade humana entre outras.
Essa concepção falha em compreender a sua essência. Reduzi-la a uma mera ferramenta impede-nos de julgá-la, dominá-la ou manter uma distância crítica em relação a ela.
A não neutralidade da tecnologia contemporânea é sua característica definidora, um fato compreendido por pensadores da estatura de Carl Schmitt e Jacques Ellul.
Hoje, esse é também um ensinamento do Papa Leão XIV.
Segundo Heidegger, a essência da tecnologia é, simultaneamente, uma estrutura de enquadramento e uma imposição — o *Gestell*, no vocabulário evocativo do gigante de Messkirch.
Enquanto a tecnologia, na Antiguidade, operava em harmonia com a natureza, hoje ela agride-a, tratando-a como um "fundo de reserva" (*Bestand*) — um acervo de energia e materiais prontos para serem catalogados, explorados e consumidos sob demanda.
O resultado é o niilismo, visto que a tecnologia reduz tudo — inclusive os seres humanos — a objetos e recursos consumíveis, despojando-os de qualquer outro sentido ou propósito.
O homem é reduzido a uma função: acredita dominar a tecnologia, mas, na realidade, torna-se seu apêndice e, por fim, seu escravo, aprisionado num modo de pensamento puramente calculista.
Ernst Jünger, na sua maturidade, e Walter Benjamin adotaram essa mesma perspectiva, embora utilizando linguagem e premissas distintas.
Na era da IA, tememos uma abdicação humana total do pensamento, na qual até mesmo as decisões mais triviais são delegadas à tecnologia.
Existe uma inadequação fundamental nos seres humanos diante da tecnologia — o que Günther Anders denominou "hiato prometeico": a disparidade entre o talento para inventar e produzir máquinas e a capacidade de vislumbrar seus efeitos e, assim, dominá-las.
Para Anders, o homem torna-se "obsoleto" por ser inferior aos produtos de sua própria inteligência, tanto individual quanto coletiva.
A reflexão de Heidegger vai além; o homem moderno encontra-se profundamente despreparado para lidar com a tecnologia, pois comete o erro de encará-la como uma ferramenta sob seu controle.
Os resultados da IA sugerem o contrário, e os riscos temidos por alguns dos seus próprios defensores demonstram isso de modo sinistro.
Na *A Questão da Técnica*, Heidegger explicou que a ilusão humana mais perigosa é a crença de que somos senhores da Terra, convencidos de que os dispositivos tecnológicos são meros meios a serem usados e dominados à vontade.
A essência da tecnologia constitui um horizonte de pensamento neo-gnóstico que sufoca a humanidade.
No caso da Inteligência Artificial, a perspectiva de hibridizar a humanidade com máquinas — ou de "aumentá-la" com chips e outros desenvolvimentos transumanos ou pós-humanos — é profundamente inquietante; o cenário outrora intuído pelo filósofo está-se a tornar uma dura realidade.
A razão fundamental da derrota do homem faustiano — justamente no momento do seu domínio triunfante sobre as forças da natureza — reside na ilusão instrumental que o entrega, cego e desprovido de defesas interiores, à primazia da tecnologia. *Gestell* é um mecanismo que impele o homem a encarar a natureza exclusivamente como uma reserva infinita (num mundo finito!) de energia e materiais a serem explorados.
A natureza, explica Heidegger, já não é contemplada, mas sim desafiada e provocada. O próprio homem é reduzido a "stock de disponibilidade". Convencido de que domina a máquina, não percebe que, por sua vez, está a ser catalogado, modificado e padronizado pelo sistema tecnológico.
Ele próprio torna-se um recurso consumível e descartável.
Os senhores da tecnologia garantem que ele permaneça alheio e indiferente. Diante do fluxo incessante de inovações, o homem abdica do pensamento meditativo: já não reflete sobre si mesmo nem sobre as consequências das suas ações.
No entanto, visto que a tecnologia é o nosso destino, a nossa única salvação reside em encontrar coragem para questionar a sua essência.
Somente ao redescobrir a capacidade de questionar — e ao voltar-se para a arte (que os gregos chamavam de *techne*) — é que a humanidade poderá deixar de ser um sujeito passivo da tecnologia e, em vez disso, desenvolver uma relação consciente com ela.
O próprio Heidegger — que não viveu para ver o advento da Internet, dos computadores, dos smartphones ou da inteligência artificial — chegou a declarar, no final da vida: "Apenas um deus pode nos salvar".
Ele ofereceu-nos um vislumbre de esperança ao citar um verso do poema *Patmos*, do poeta romântico Friedrich Hölderlin: "Mas onde o perigo ameaça, cresce também o que salva".
Noutras palavras, diante de uma tecnologia dominante, o que cresce é o pensamento crítico, o julgamento ético e, em última análise, a noção de limites — o que significa a derrota final do homem faustiano pelo *Homo sapiens*.
Segundo Oswald Spengler, a expansão da tecnologia — impulsionada pela civilização ocidental — não representa o apogeu da racionalidade humana, mas sim uma encruzilhada trágica.
Muitas de suas ideias e deduções revelaram-se esclarecedoras para a análise das tendências atuais. No *O Homem e a Técnica* (1931!), ele previu, com precisão surpreendente, o cenário que hoje se desenrola diante de nossos olhos. Nascida das profundezas da alma ocidental — caracterizada por uma sede insaciável de inovação, pela busca do ilimitado e pela exploração radical das forças da natureza —, a tecnologia rompe as barreiras de suas origens territoriais para se tornar um fenômeno planetário.
A sede ancestral de conhecimento e conquista — manifestada em ousadas expedições marítimas, explorações, descobertas científicas e revoluções industriais, sociais e políticas — transformou-se; ela abandonou o mundo material para se instalar na onipresença das redes virtuais, no seio de uma estrutura invisível, onipresente e abstrata: o algoritmo.
Falar num "algoritmo faustiano" é reconhecer a fase terminal e definitiva da tecnologia ocidental — o seu desfecho irrevogável.
Isso marca a transição do controle sobre a matéria para o imperativo do código, uma força que aspira à omnisciência e à omnipotência ao converter a contingência aleatória da vida em cálculo determinístico.
O receio é que essa estrutura digital acabe por saturar completamente o globo, impedindo, de forma irreversível, o surgimento de qualquer outra cultura.
A humanidade ver-se-ia arrastada para uma transformação sem precedentes: uma civilização tecnicamente omnipotente, porém espiritualmente morta, a marchar inexoravelmente em direção à petrificação. Para compreender a dimensão da ordem algorítmica, é preciso recorrer à morfologia da história de Spengler — uma perspectiva baseada não no progresso linear e cumulativo, mas na sucessão de culturas distintas que nascem, amadurecem, envelhecem e morrem, cada uma representando uma forma específica de perceber o mundo.
A alma apolínea da cultura greco-romana rejeitava o ilimitado, equiparando a perfeição à proporção e ao equilíbrio.
A alma faustiana, em contrapartida, define-se por uma obsessão pelo espaço infinito, pelo dinamismo puro e por uma insaciável vontade de poder.
Sob essa perspectiva metafísica, a inteligência artificial não é nem um acidente histórico nem um mero avanço da engenharia; é o destino inevitável, a consequência incontornável da alma faustiana.
Representa a tentativa do homem ocidental de dissociar o intelecto da matéria biológica — uma forma de prometeísmo que transcende os limites do espaço e do tempo.
Enquanto a tecnologia industrial clássica permanecia dependente da matéria e do corpo, o algoritmo cria e gerencia informações, colonizando o futuro por meio do vasto poder preditivo gerado pela interseção de dados e metadados. Essa mudança de paradigma marca o colapso daquilo que Spengler denominou "Civilização".
A "Cultura" representa a fase criativa, orgânica, natural e espiritual de um povo; a "Civilização" é o estágio tardio, mecânico, artificial e decadente, no qual o intelecto frio suplanta a alma calorosa, e o reino da qualidade dissolve-se no reino da quantidade.
E agora, passemos aos temas dos dados e da tecnocracia.
- de Roberto Pecchioli -
(Tradução do italiano e adaptação à lingua portuguesa por Guilherme Morgado)